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O OUTRO

Alguns
Cantam

fábula


Durante toda a vida, antes da doença e depois da doença, antes de dormir e depois de dormir, antes de andar e depois de andar, alguém nos contou, e nos contou; histórias, sobre histórias, sobre histórias, sobre histórias.

O que nos contaram, contaram com as mãos de ontem.

Há um tempo atrás essa história aqui começava com uma frase, com essa frase: TUDO É FICÇÃO. E  ainda é, de certa forma. Essa capacidade de imaginar o que poderia ser, o que é.

É. Estamos aqui. Em equilíbrio. Num pau, ou mastro de bandeira. É um equilíbrio precário. O vento que, daqui de cima, é violento, balança nossos corpos como uma massa única, como um enxame de abelhas agarrado a colmeia.  

Somos um número considerável e é difícil a auto contagem. No mastro há, também, um resto tremulante de pano, devia ser uma bandeira, alguém diz. No pedacinho de pano é possível distinguir a letra i e um A cortado ao meio. Isso que a gente vê escrito faz o som da letra E, e por isso, e somente por isso, quando alguém disser E, saberemos que a história segue, a história que ainda  falta, as mãos de amanhã.

Alguém escorrega no pau, no mastro, e se aventura lá embaixo. O percurso é longo, mas ouvimos de cima um ohhh ou ahhhhh, longo, gutural e profundo, seguido por um gritinho estridente e fino. Escorregamos também.

Embaixo, é o mar.

Alguém diz que não sabe boiar, alguém grita, - eu te ensino! O movimento dos corpos na água cria uma espuma que, aos poucos, nos protege do frio. Se pudéssemos ver de cima, lá do alto do pau ( do mastro da bandeira ), de onde estávamos, veríamos a imagem de um grupo de pessoas boiando, e talvez , por um instante, acreditássemos estar diante de uma monstruosa estrela do mar, ou de uma constelação desconhecida até então, ou ainda e apenas, da própria imagem, em si: um grupo de pessoas, no meio do oceano, juntas a boiar.


[ tempo ]


Alguém começa a falar.